Como pensar o humano num mundo que nos solicita precisão, controle, instrumentalização, técnica e imediatez? Como pensar os
corpos, as corporalidades, as dimensões existenciais que chegam à nossa clínica? Este livro aponta para uma discussão importante no campo da psicologia, qual seja, o da atuação clínica em contextos digitais e como tais perguntas desdobram-se em outros questionamentos sobre a psicologia que estamos construindo. Rui nos apresenta uma discussão, fruto de sua tese de doutorado, que dialoga com noções importantes no campo das perspectivas fenomenológicas, especialmente para a fenomenologia hermenêutica.
O contexto da pandemia de covid-19 solicitou inúmeras revisitações aos nossos fazeres no campo da clínica e da saúde. A partir disso, questionamos como seria possível fazer uma clínica com um “corpo enquadrado em pixels”, na tela de um computador ou de um smartphone. O autor, neste escrito, traz uma importante assertiva, que é a de que não faz sentido comparar a clínica tradicional (presencial) com a clínica que acontece de maneira digital. E, realmente, não faz sentido. Ora, a preocupação da psicologia, independente da epistemologia em que se ancora, não seria a de acompanhar o humano em suas dimensões temporais e existenciais? A partir do gesto e o que (re)colher do gesto na clínica, Rui nos aproxima de uma dimensão de clínica que mesmo digital é encarnada, pois se dá via coexistência, compartilhamento coletivo, no qual terapeuta e cliente se imbricam na tarefa de existir-corporalmente-no-mundo – ou seja, uma tarefa ético-política como reflexão do nosso fazer-saber.
Jailton Bezerra Melo (Docente-PUC-SP)