Mora na Filosofia é uma antologia literária que nasce de um processo formativo da FLUP - Festa Literária das Periferias e afirma, desde a primeira página, uma tese incontornável: samba é filosofia. Organizado por Julio Ludemir e publicado pela Editora Malê em 2026, o livro reúne mais de quarenta contos, crônicas e ensaios de autores e autoras das periferias cariocas, cada texto precedido por uma música de samba como epígrafe como se a canção fosse o portal de entrada para a narrativa que segue.
Não se trata de uma escrita de si, individualista ou solipsista. O livro se ancora na escrevivência, na escrita forjada na coletividade, na língua portuguesa "lambuzada e rasurada pelas margens afro-indígenas". Cada texto mergulha nas experiências do povo do samba, do povo de santo e do povo da rua, sambistas, partideiros, benzedeiras, mães de santo, cozinheiras, trabalhadores, malandros para revelar que a filosofia não é privilégio dos acadêmicos: mora no cotidiano, no pechinchar da feira, no boca a boca do mercado, na palma da mão.
Os contos atravessam um espectro amplo de temas: amor em suas múltiplas formas (romântico, familiar, próprio, clandestino), ancestralidade e espiritualidade de matriz africana (Orixás, terreiros, axé, ebós), identidade de gênero e sexualidade, violência estrutural e racismo, memória e luto, resistência cultural e transformação urbana. O subúrbio carioca, Madureira, Oswaldo Cruz, Padre Miguel, Maré, Vila Kosmos é retratado não como lugar de carência, mas como coração cultural pulsante, onde o samba se faz "na escassez, mas também na invenção".