René Girard deseja compreender como nossa capacidade de imitar — gestos, padrões, vontades — intensifica o caráter competitivo da vida, gerando rivalidades, conflitos e, por fim, a violência. Para ele, não desejamos algo por seu valor intrínseco, mas porque outros o fazem: imitamos, ainda que de maneira inconsciente, o desejo alheio, e essa inveja — ou “desejo mimético” — ergue-se como um dos fundamentos da condição humana. Dessa reflexão nasce o conceito do “mecanismo do bode expiatório”: a sociedade concentra sua agressividade em uma única vítima de modo a restabelecer a ordem, um ato sacrificial que dá origem a proibições, rituais e instituições destinadas a conter o caos.
Em Teatro da inveja, um dos mais importantes críticos literários e culturais volta seu olhar para a figura central da literatura inglesa, William Shakespeare, e oferece uma leitura inovadora de quase toda a sua produção teatral. Ao aplicar suas intuições radicais à dramaturgia do Bardo, René Girard convida o leitor a revisitá-lo à luz da teoria mimética. Ao demonstrar como Shakespeare transforma a matéria bruta da tragédia em uma visão profética sobre a violência, Girard não se limita a aplicar sua teoria ao dramaturgo; mas demonstra que o próprio Shakespeare já pressentira a lógica mimética, registrando-a desde as primeiras peças.
Tradução de Bernardo Santos.