Pescoço – um canhão de elétrons acompanha um personagem do fim da infância à vida adulta, entre 1980 e 1999. Menino, ele gira o botão de um radinho de pilha à procura de vozes que ninguém mais escuta: transmissões de discos voadores, sinais de fantasmas, conversas que se perdem entre uma estação e outra. A casa, a televisão de tubo, o mosquito que volta sempre, a projeção astral e os reptilianos compõem um imaginário doméstico onde o sobrenatural divide espaço com o tédio dos dias. Adolescente, troca a escuta pelo tocar: monta uma banda e faz da estática matéria-prima de som. Adulto, ganha a vida desenhando manuais de instrução – a linguagem técnica das máquinas que o cercaram a vida inteira.Ao longo das décadas, o Brasil também muda de pele, e o romance acompanha essa virada de século pelo avesso, sem alarde, na escala de um cotidiano de subúrbio. Quadrinista de formação, Tiago Judas escreve uma prosa que cruza o drama existencial com o humor das histórias em quadrinhos underground e a imaginação da ficção científica de garagem. Pescoço é um romance sobre escuta: o que captamos das ondas, dos mortos e da própria memória quando ninguém está sintonizado na mesma frequência.