Em meados do século XVIII, pareceu pertinente reabilitar uma velha tópica do ceticismo: a razão dos animais. Hume foi, sem dúvida, o primeiro a perceber que essa tópica merecia ser integrada à filosofia, não como recurso de argumentação para questionar a razão humana, mas sistematicamente, para mostrar qual a natureza dessa faculdade.
Para os filósofos racionalistas, herdeiros da tradição cristã, a razão é uma prerrogativa humana concedida pelo Criador. Hume se insurge contra essa ideia e mostra que a razão é animal antes de ser humana.
Ora, se os homens pensam diferente de outros animais, é porque suas necessidades e prazeres, determinados pela fisiologia de sua espécie, são eles também específicos. Assim, a razão é um instinto, inscrito na "economia animal". A força desse argumento não demorou a ser percebida, e logo a razão animal se tornará uma questão obrigatória em toda discussão filosófica merecedora deste nome, aparecendo também na história natural.
O livro de Dario Galvão que o leitor brasileiro tem em mãos, dedicado a esta questão, é daqueles que nos dão motivos para renovar nosso otimismo com a filosofia. Erudito e profundo, nem por isso é difícil. Muito ao contrário, o texto nos engaja a ponto de, por vezes, nos encantar, transportando-nos para um mundo em que a discussão teórica ocorre em atmosfera de liberdade e inventividade.
Costuma-se associar o Século das Luzes a uma suposta "idade da razão". Dario Galvão nos convida a revisar esse lugar-comum, explorando tudo o que essa expressão tem de impensado.
O estudo tem ainda um outro mérito. Não é sentencioso e evita cuidadosamente a condescendência para com autores geniais, que não escreveram para a nossa época, mas que, talvez, tenham se adiantado a ela, vislumbrando soluções interessantes para impasses que nos afligem.
Pedro Paulo Pimenta
Universidade de São Paulo