Há violências que não terminam com a morte. Para muitas mulheres trans e travestis, o apagamento continua nos boletins de ocorrência, nos inquéritos policiais, nas denúncias do Ministério Público e, por fim, nas decisões judiciais. Quando a identidade da vítima é ignorada, alterada ou simplesmente silenciada, o sistema de Justiça deixa de apenas julgar um crime. Passa também a escrever uma narrativa sobre quem merece ser reconhecido como sujeito de direitos.
É justamente esse processo que Ayune Bezerra Soares se propôs a investigar. A partir da análise de julgados do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, a autora examina de que forma o Poder Judiciário identifica – ou deixa de identificar – a transfobia e o transfeminicídio em crimes praticados contra mulheres trans. O resultado é um estudo rigoroso, sustentado por sólida pesquisa empírica e por um consistente diálogo com os estudos de gênero, os direitos humanos e a criminologia contemporânea.
Mas esta não é uma obra que trata de morte. Trata, sim, do direito à própria identidade e à vida. E ultrapassa os limites de uma investigação acadêmica. Ao revelar como categorias jurídicas, escolhas linguísticas e práticas institucionais podem perpetuar formas de invisibilização, o livro convida o leitor a refletir sobre como o reconhecimento da identidade é também uma condição para a efetivação da Justiça.
Escrito por quem conhece o tema não apenas como pesquisadora, mas também como mulher trans e participante ativa da construção de políticas públicas e da defesa dos direitos humanos, este livro reúne rigor científico, sensibilidade e compromisso ético. A experiência pessoal da autora jamais substitui a pesquisa. Ao contrário, amplia sua capacidade de formular perguntas que muitas vezes permaneceram invisíveis ao próprio sistema jurídico.
Embaixo desse silicone também bate um coração é, acima de tudo, um convite a enxergar aquilo que, durante muito tempo, permaneceu oculto. Porque nenhuma sociedade pode se dizer verdadeiramente justa enquanto permitir que pessoas sejam apagadas duas vezes: primeiro pela violência, depois pelas instituições encarregadas de reconhecê-las.