A ascensão de Hitler foi um acidente da história e o desfecho inevitável de uma democracia doente ou o resultado de uma escolha deliberada? É essa pergunta incômoda que Johann Chapoutot responde em Os irresponsáveis: quem levou Hitler ao poder?
Longe de ser uma fatalidade, a chegada dos nazistas ao poder foi obra de uma oligarquia que, para defender seus privilégios e não arriscar suas fortunas, preferiu desmontar a República de Weimar. No centro dessa história estão figuras como Franz von Papen, Kurt von Schleicher e o círculo mais próximo do presidente Paul von Hindenburg. Para eles, Hitler não passava de um amador a ser domesticado, a força popular que faltava a uma direita sem base eleitoral. Os irresponsáveis do título são esses liberais autoritários, militares, grandes industriais, proprietários de terras, magnatas da imprensa e aristocratas convencidos de que poderiam usar o movimento nazista como tropa de choque na luta de classes, para depois descartá-lo.
Chapoutot reconstrói com precisão os mecanismos jurídicos dessa erosão. Mostra como o uso abusivo da Constituição transformou o regime em um presidencialismo autoritário capaz de contornar o parlamento e concentrar poderes excepcionais nas mãos de um chefe de Estado manipulável; um projeto que pretendia substituir o debate democrático por uma austeridade imposta de cima, que garantiria a supremacia do Executivo e os interesses dos proprietários.
Além de um importante estudo histórico, Os irresponsáveis é um alerta. Ao aproximar a crise da década de 1930 das fragilidades das democracias atuais, Chapoutot adverte contra a repetição do fenômeno: um “extremo centro” que acaba preferindo o autoritarismo à perda de privilégios. Ao expor a irresponsabilidade daquela oligarquia, o autor lembra que tal escolha pode, mais uma vez, abrir as portas para a extrema direita e seu projeto de destruição.