O livro ultrapassa abordagens tecnicistas e discursos educacionais esvaziados de implicação ética ao propor uma metodologia que articula literatura, memória, corpo e resistência de maneira coerente e sensível. Ao ancorar-se na obra e no pensamento de Conceição Evaristo, especialmente no conceito de escrevivência, as autoras valorizam as vozes negras no espaço escolar, com atenção especial às experiências das mulheres negras. Em um contexto em que a escola ainda enfrenta o desafio de reconhecer plenamente a diversidade que a constitui, a escrita é apresentada como gesto de existência, de autoria e de resistência.
[...] Um dos méritos centrais do livro está na clareza de seu propósito educativo e social. A escola é concebida não apenas como espaço de transmissão de conteúdos, mas como território de escuta, criação e reconhecimento. Narrar-se, nesse horizonte, é um ato de formação: é inscrever-se no mundo como sujeito de história e de linguagem. Ao propor práticas que acolhem a experiência dos estudantes, as autoras reafirmam a dimensão política da docência, entendida como responsabilidade ética diante das desigualdades que atravessam o espaço escolar.
— Do Prefácio, de Jozanes Assunção Nunes
Professora Doutora PPGEL/UFMT
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Algumas literaturas nascem nas cozinhas, nos quintais, nas vozes das mulheres mais velhas, nas histórias repetidas ao redor da mesa, nas canções ouvidas ainda na infância. Há palavras que chegam antes da leitura formal e organizam silenciosamente a maneira como escutamos (sentimos) o mundo. Há escritas que começam no corpo, na memória e na experiência de tentar nomear a própria existência quando o mundo ainda insiste em negar certos sujeitos como dignos de fala (e de escuta).
É desse território de memória, oralidade e experiência que emerge Narrar-se para existir.
Ao aproximar literatura, educação e escrevivência, Taila Costa e Beth Brait constroem uma reflexão vigorosa sobre o direito à palavra, à imaginação e à autoria no espaço escolar. Mais do que discutir práticas de leitura e escrita no Ensino Médio, o livro enfrenta uma questão decisiva para o presente da educação brasileira: o que acontece quando jovens negros e periféricos encontram, na literatura, a possibilidade de narrar a própria experiência? O que se transforma quando a escrita deixa de ser apenas exercício escolar e passa a funcionar como elaboração de memória, construção de pertencimento e afirmação de existência?
Ancorada no pensamento de Conceição Evari