A originalidade e profundidade da obra de Plotino (c. 205 – 270 d. C.) logo vêm à tona ao se examinar o modo como suas hipóstases, o Um, o Intelecto e a Alma, se constituem e se relacionam. Tal exame revela a vastidão de uma arquitetura filosófica capaz de notável influência no pensamento ocidental, a qual perpassa Agostinho, o Renascimento, Hegel e, inclusive, Guimarães Rosa. Seu neoplatonismo vem ainda com um expressivo, rico e desafiador modo de escrita. Dentre seus 54 tratados, divididos em 6 Enéadas, o Tratado sobre os Números, o sexto da sexta Enéada (tratado VI 6), chama especial atenção por seu tema e dificuldade. Nele visitamos um dos mais vastos e imbricados tópicos da tradição platônica, que é um modo matemático de se expressar ou mesmo conceber ontologia e metafísica. Como Aristóteles já dizia, “para os filósofos de hoje, as matemáticas se tornaram filosofia”. Com a presente tradução do tratado VI 6, suprida por comentários e notas, pretendemos mostrar como Plotino se serve de uma certa “metafísica do número” para elucidar a riqueza do inteligível e, com isso, acaba por oferecer uma valiosa referência para se entender o papel dos entes matemáticos na estruturação e expressão de uma metafísica platônica.
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