Um homem que relembra sua infância mágica não só como uma época passada, e sim como uma possibilidade perdida. Em A infância do mago, Hermann Hesse faz um relato autobiográfico de um menino que carregava a centelha do extraordinário, mas foi ofuscado pela realidade da vida adulta. A infância do mago narra o despertar de um menino em sua infância campestre no fim do século XIX. A obra data de 1922, quando Hesse chegava aos quarenta e cinco anos e ingressava na fase mais madura de sua criação literária. Engana-se quem pensa que esse breve e encantador relato é uma tentativa de resgatar lembranças de uma fase tranquila e bucólica. Este conto, ou fábula autobiográfica, funde o registro estilístico e os temas que Hesse veio a abordar em sua obra literária.Cercado por macieiras, sol, chuva, rios e bosques – em comunhão com a natureza e com os animais – o menino acredita viver no paraíso. Sua família inteira gira em torno do avô materno, um homem sábio e erudito, que intriga e apazigua o garoto. E o centro da casa é o gabinete de estudos do avô, um espaço físico fechado, mas que, ao mesmo tempo, funciona como uma porta para o mundo, especialmente para a Ásia – seus idiomas, suas religiões e sua cultura.Ao longo das páginas deste emocionante conto, vemos o menino, cujo sonho era ser mágico, aos poucos desprender-se das fantasias infantis – seja pela maturidade exigida frente a determinadas situações ou pela perda da inocência – e ser capturado pela vida adulta, forçado a se curvar diante daquela nova realidade. As memórias do Prêmio Nobel de Literatura se misturam aos registros dessa criança que tinha especial admiração pela arte de se tornar invisível, mas que, aos poucos, foi deixando de lado a ideia da invisibilidade sob um manto mágico em prol da invisibilidade do sábio, que conhece tudo e nunca é reconhecido.