A aparente inverossimilhança da história pode deixar o leitor de antemão desconfiado. Um dos mais importantes museus do mundo, o Reina Sofía, em Madri, simplesmente se dá conta do desaparecimento de uma obra colossal. Trata-se da escultura Equal-Parallel/Guernica-Bengasi, de autoria do escultor estadunidense Richard Serra.
Encomendada especialmente para a inauguração do museu, a obra foi depois arquivada e armazenada por uma empresa terceirizada. Anos depois, diante do desejo de expô-la novamente, o museu dá-se conta de que ninguém sabe mais de seu paradeiro: a empresa responsável pelo armazenamento faliu, desapareceu, não há mais quase nenhum rastro dela.
Fosse um quadro, uma tela pequena, ou mesmo uma escultura de menor porte, a história seria outra, menos incompreensível. Mas como pode desaparecer uma obra gigantesca, pesadíssima, composta de quatro blocos de aço que pesam juntos trinta e oito toneladas? Sabe-se apenas que o escândalo de proporções mundiais fez com que Serra aceitasse produzir uma réplica da escultura original desaparecida, que ainda hoje está exposta no museu em Madri.
Para o autor espanhol Juan Tallón, contudo, somente a ficção poderá dar conta de tamanho absurdo, bem como das questões que daí surgem: o que é uma obra de arte? O desaparecimento faz parte da escultura? Forma e conteúdo se interligam ainda que a forma, no caso, seja fantasmática? Um dia voltaremos a ver a obra original? Cópia e original podem conviver de forma una?
Em ritmo de thriller, Tallón evoca dezenas de narradores que testemunham sobre a complexidade do acontecimento: os responsáveis pelo museu, a polícia investigativa, o próprio Richard Serra, entre muitos outros. Emulando a estrutura da segunda parte de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, neste Obra-prima, livro vencedor dos prêmios Rodolfo Walsh e Euskadi de Plata, com tradução minuciosa de Joca Reiners Terron, o mistério subsiste sem existir, uma vez que não há corpo, não há evidência. Ninguém tem a menor ideia do que aconteceu.