Trata-se de uma obra de ficção realística, escrita durante a pandemia da Covid-19, em meio a perdas de milhares de pessoas, pessoas queridas, no Brasil e em minha cidade, São José do Rio Preto. O livro foi escrito a partir de histórias reais, encaminhadas a mim por pessoas em confinamento. Amores desapaixonados pela convivência diária, transformada em monotonia, a impossibilidade de vivenciar e elaborar o luto de um bem-querer, a convivência com animais na tentativa de espantar a solidão, a sordidez do capital e dos governos genocidas diante dos dramas e traumas individuais e coletivos, o aprofundamento da uberização e da autoexigência do trabalho em casa, aumentando ainda mais a usura das empresas sobre corpos e almas operárias, entre outras marcas da contemporaneidade, conformam as narrativas deste livro, real e distópico. A desumanização do humano e a humanização de seres biotecnológicos, tema tão atual nesta época de bebês Reborn, inteligências artificiais e obscurantismos, de relações virtuais, onde o mais-gozar não encontra nenhuma resistência, fluindo livremente nas redes e contaminando as relações reais, são as pedras de toque deste romance, que se utiliza de dois personagens: uma retirada das artes (Mona Lisa), o outro, buscado na mitologia grega (Narciso). Realidade e ficção, distopias e utopias, humano e autômatos, natureza e artefato, biós e zoé, entre muitos oxímoros e figuras de linguagem, estão aí para nos perguntar quem somos. Gramscianamente: em que, no que, para que e com quem queremos nos tornar?