Figura central da literatura e da mitologia grega, Medeia atravessa os séculos como personagem marcada pela ambiguidade: ora vista como a mãe monstruosa capaz de matar os próprios filhos, ora como vítima da natureza inconstante de Jasão, seu marido, ou ainda como a estrangeira perpétua, que renegara as próprias origens.
Em Medeia: Vozes, a autora Christa Wolf, de quem a Estação Liberdade já publicou Cassandra em 2007, revisita essa figura mítica sob uma perspectiva contemporânea, despindo a personagem de antigos clichês e propondo um acerto de contas com sua ancestral má reputação. Vemos aqui o retrato de uma mulher libertina e voluptuosa, e cuja personalidade inquisidora e franca faz um contraponto à timidez e à submissão próprias das mulheres de Corinto, o lugar onde Jasão e Medeia tentam criar raízes.
A Medeia da tragédia grega — a bárbara, venenosa, vingadora, assassina — e seus mitos são, portanto, passados a limpo pelo atento crivo de Christa Wolf. A autora desenha o retrato de uma mulher singela e empoderada em obra traduzida para as principais línguas e levada aos palcos em numerosas encenações.
Medeia abandonara sua terra natal, a Cólquida, por não ser conivente com a corrupção reinante. Mas, ironia do destino, em Corinto as coisas não lhe serão muito diferentes. Ali, no palácio real, em meio a intrigas, calúnias e mentiras, ela descobre o segredo nefasto que o rei Creonte tenta ocultar: o de que ele, Creonte, movido unicamente pela cega ambição de consolidar seu poder, sacrificou uma de suas filhas, ocultando o assassinato de seus súditos. Determinada, Medeia se recusa a esconder a verdade, tornando-se uma ameaça. Logo, acaba abandonada por Jasão e vilipendiada como bruxa e assassina. A luta por poder é desenfreada, e Medeia acaba sacrificada como bode expiatório.
É desse modo que Christa Wolf traz à tona, a partir da recriação desse mito ancestral, uma discussão oportuna sobre a condição feminina, capaz de se rebelar contra a opressão (por vezes velada) do status quo masculinista. A Medeia de Christa Wolf é portanto a personificação de questões políticas e de gênero que sempre caracterizaram sua produção literária e que a transformaram numa voz feminina incomparável no universo das letras germânicas.