Chapas de metal, parafusos, placas de madeira, serragem, argila, zarcão: é no meio de “prateleiras cheias de tralha,/ uma confusão de cacarecos” que Alberto Martins, poeta e artista plástico, procura as lascas da poesia. E vice-versa. Neste caderno, em que as palavras convivem com a voz dura das gravuras, o poeta transita entre a anotação e a citação, entre a faxina e o sonho. A tinta preta das letras e das gravuras é a mesma.
Caderno de lascas é um poema, ou uma série de poemas, mas sua forma transborda. Ao mesmo tempo, é um ensaio, ainda que também escape para outros registros. Essa forma oscilante, mutante, entre verbal e visual, forja uma reflexão sobre o trabalho do poeta e o do artista em geral, como trabalho mesmo, ação concreta do corpo, da mente, das ferramentas sobre determinados materiais, revelando a linguagem das coisas e, claro, as coisas da linguagem, testando diferentes escalas para o próprio gesto.
Nessa oficina aberta, confluem os trabalhos — as artes — de escultores, gravadores, tradutores, mas também de soldadores, marceneiros, caldeireiros. Interessa ao autor chegar até o lugar em que as duas acepções de pintor, seja de quadros ou de paredes, não se distinguem. Por outro lado, essas “lascas” escritas, que partem do ateliê do gravurista, convidam a entrar na obra de um dos mais importantes poetas em atividade. No fundo, não há divisões entre as diversas práticas de Alberto Martins: dá para ouvir o martelo bater, a faca rasgar e o formão escavar sob suas palavras.