No coração da psicanálise esconde-se um trauma
apagado. É aquele sofrido por Sigmund Freud no dia em que soube que uma de suas
pacientes quase morreu após uma cirurgia que ele havia aprovado. Inconscientemente identificada como uma repetição da mutilação genital sofrida
por Emma Eckstein em sua infância, essa operação despertou nele fortes
angústias, que ecoavam sua própria circuncisão, o contexto violentamente
antissemita e o conflito com seu pai. O reconhecimento desse fato, mantido
oculto por tanto tempo, revela uma nova narrativa sobre a fundação da
psicanálise, permitindo compreender como Freud pôde elevar a castração ao
status de forma a priori do traumático, ocultando ao mesmo tempo as mutilações genitais frequentemente impostas a mulheres e meninas. O trauma não reconhecido
da circuncisão inscreveu se, assim, no sistema de pensamento freudiano como uma
herança amputada, da qual brotaram e floresceram os sonhos e fantasias de seus
discípulos mais próximos. Em especial, Sándor Ferenczi, aluno e confidente de Freud, contribuiu para reconhecer esse corpo ferido, lançando novas bases para
a teoria e a prática psicanalítica.