Não conheci propriamente Carlito Lima. Na verdade, explodimos juntos, na Avenida da Paz, nos anos 1940, acabados de nascer. E seguimos juntos por nossa infância, chegando à juventude em Maceió, mesmo que, a partir de certa idade, tenhamos morado em cidades tão distantes uma da outra. É, portanto, uma honra especial escrever este texto sobre ele e seu livro mais recente, Helena da Rua das Árvores. Carlito nos conta, nesse livro, uma história de amor entre dois idosos. Existe uma resistência dos ?lhos. Helena é uma mulher forte em suas lutas pela sobrevivência e pela comunhão entre eles, tema escrito por Carlito Lima, com título em homenagem a uma bela rua antiga da cidade de Maceió. Os personagens ?ctícios têm suas virtudes, seus defeitos; reconhecemos neles seres humanos como nós.
Esse romance tem uma força telúrica, mantém o saudável desejo de reinventar a “literatura nordestina”, modernizar seus temas e seus hábitos, sua capacidade de abordar mundos antes proibidos, talvez até por um falso rigor moral. O que se destaca na ?cção de Carlito e em sua “cultura local” é justamente a busca pela liberdade. Como Gabriel García Márquez ou Alejo Carpentier, o autor é um cronista da vida de seus conterrâneos. Ele é capaz de fazer dessa qualidade um sólido apoio para se lançar no coração da origem de seus personagens. São eles que revelam, por sua ação, pelo que dizem ou pelas simples sombras que espalham por cada cenário, a grandeza de sua presença no mundo. É com esses nordestinos e alagoanos, como ele, que Carlito Lima procura fazer sua mágica e vigorosa revolução cultural e literária.
Sinto-me orgulhoso de ser amigo de Carlito, de ter dividido com ele experiências e descobertas que só na infância e na adolescência podemos experimentar. Aprendi com ele, e ele comigo, muita coisa que só essa convivência podia inventar. Acompanhando sua carreira de escritor bem-sucedido, sinto-me homenageado; como ele deve se sentir, com qualquer um de meus ?lmes que dê certo. Nós somos parte de uma extensa família cultivada na beira do cais, na Avenida da Paz.
Cacá Diegues
Alagoano, amigo de infância do autor. Foi morar no Rio de Janeiro onde abraçou o cinema. Roteirista, produtor, cineasta, e escritor. Um dos fundadores movimento do Cinema Novo. Cacá participou de momentos distintos da história do cinema brasileiro, sua obra atravessou mais de 5 décadas de produção.