Fruto de quinze anos de gestação, Água brusca recusa classificações estáticas, situando-se na fratura entre criação literária, ensaio crítico e documentação de artes visuais. Publicado pela WMF Martins Fontes, o livro investiga as tensões entre a ferida colonial e a ancestralidade diaspórica a partir de uma proposição conceitual que o distingue: a autofagia como método — não a devoração do outro, mas o consumo de si e das próprias referências como condição para que novas formas emerjam.
A obra percorre territórios de simbolismo denso, como o Raso da Catarina e as ruínas de Canudos, tratando a história como "matéria ignífuga" — aquela que resiste ao fogo e ao esquecimento, mineralizando-se na linguagem. Por meio de uma tríade de personagens míticos (Ìyá, Cândido e Kékeré) e de soluções formais radicais — entre elas a voz coletiva de uma colônia de cupins que narra sua própria erosão —, Caetano Dias estabelece um diálogo tenso com o cânone brasileiro. De Euclides da Cunha a Guimarães Rosa, as referências são subvertidas por uma escrita que funde iorubá transliterado, sertanês arcaico e português contemporâneo sem que nenhuma dessas camadas ceda à ornamentação.
Com projeto gráfico de estética minimalista, o livro opera como dispositivo transmidiático: não apenas documenta instalações feitas de cobre, cera e açúcar, mas instaura uma cosmogonia viva, onde a "água brusca" do sertão torna-se elemento de uma epistemologia que o livro não explica — encarna. Os traumas históricos não são tema, são estrutura. E é essa recusa em separar forma de ferida que faz de Água brusca uma obra que permanece depois de lida — não pelo que revela, mas pelo que preceitua.