O câncer entrou na minha vida quando nasci. Sou do signo de câncer! Será que já era uma influência astral em minha jornada existencial? Brincadeira ou não, fato é que 2011 foi o ano que o câncer realmente marcou de vez a minha história. Desde que recebi o diagnóstico de câncer de mama e vivenciei vários procedimentos clínicos nunca mais passei um dia sem pensar nessa fase, sentir minha cicatriz. Não falo só da cicatriz na mama esquerda, mas da cicatriz existencial. E como toda cicatriz, essa também tem sua premissa, história de indagações, incertezas, desejos e pulsões.
Tempo passou... Em 2023 descobri uma forma de viver com essa cicatriz de forma mais leve e prazerosa. Comecei a remar... Entreguei de corpo e alma à prática de remo em canoa havaiana.
O uso de remar em canoa havaiana originou-se na região da Polinésia há três mil anos como meio de levar vida para dentro as comunidades das ilhas do Oceano Pacifico, incluindo o Havaí. Usar canoa era essencial para a sobrevivência, tanto que os habitantes a considerava como um membro da família. Um membro que conduzia o grupo familiar para a pesca, explorar novos lugares e se defender.
Hoje, é uma forma de manter viva a cultura polinésia e é uma atividade esportiva, que na maioria das vezes é realizada em equipe. O início da remada é feito com a palavra “IMUA” que no vocabulário polinésio significa “sempre adiante” ou “força”. Remar em grupo é uma boa oportunidade para estreitar laços sociais, interagir com ambientes aquáticos e praticar atividade esportiva. É uma prática que integra corpo físico, estado emocional, dimensões sociais e culturais e, para alguns espirituais. Estimula muito uma experiência saudável de compartilhamento, responsabilidade e solidariedade.
Entrar na canoa, colocar o remo na água, buscar a sincronia, remar, sentir o vento, , apropriar-se do mar, ver a vida de outro ângulo, é muito gratificante e revigorante. Sim, curtir o balançar da canoa também auxilia no ato de revisitar e ressignificar as fases da minha jornada de vida, além do bem estar físico e mental.
Por tudo de bom que sinto ao empurrar a canoa, entrar no mar, em cada remada, cada risada, cada compasso e descompasso do remo na água, faça sol ou faça chuva, a canoa flui, a vida pulsa. A suavidade no deslizar da água tem muito a ver com meu sonho de vida, sob o meu comando e com determinação. Para a canoa deslizar é preciso remar. No silêncio do seu deslizar a canoa me ensina, possibilita escutar o não dito, desfrutar