A fofoca de vizinhança, o luto que ninguém nomeia e a convivência entre gente, bicho, planta e fungo são o terreno movediço de Nenhum animal quer beber vinho. André Balbo se volta aos lugarejos de um Brasil feito de quintais, obras paradas e terrenos sem dono, em que o realismo miúdo se emaranha com um insólito melancólico, e o humor se mistura ao suspense. As narrativas vão desde uma festa de Santo Antônio em 1999, regada a quentão e cochichos sobre o Chupacabra, passando por uma mulher ilhada numa pousada da serra com os bichos de um minizoo, até um nem tão distante 2059, em que um entregador de aplicativo é engolido pelo asfalto.
Duplos, currais, buracos na terra, silêncios de família e lendas como a do Corpo-Seco voltam de um conto a outro. Nomes e objetos também reaparecem, às vezes décadas depois, e desenham um mesmo mundo, em que personagens atualizam e reinterpretam seus modos de sentir, pensar e agir, algo próximo do que o etnólogo Edison Carneiro chamou de dinâmica do folclore. Alguns contos beiram o terror, mas o pior quase sempre acontece fora de cena, na cabeça de quem lê, que também passa a reinterpretar o que teme.
Balbo se aproxima de Lygia Fagundes Telles ao buscar o mistério e as angústias discretas do cotidiano, e de Silvina Ocampo em narradores que registram a brutalidade com uma sem-cerimônia que dispensa julgamento. A tensão, construída com o que não se diz, lembra a de Samanta Schweblin, mas aqui os contos vêm numa dicção de quem cresceu no Brasil dos anos 1990 e 2000, entre o apagão, o peixinho de aquário e as tardes chutando bola na parede. Este é o livro de um leitor que se inspira na tradição do conto latino-americano com a mesma dedicação com que assistia ao Pica-Pau depois do almoço e colava figurinhas no álbum da Copa.