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No Canto da Quadra - Livraria da Vila

No Canto da Quadra

Tarcísio Buenos

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Às vezes eu passo um tempo na Buenas Bookstore. É talvez a menor livraria do mundo, e a mais legal também. Cabem um bom número de livros, cabe o próprio Buenas, com seu notebook, com seu fone de ouvido, ouvindo sua trilha particular ou revendo pela centésima vez o documentário sobre a banda Big Star, cabem talvez mais uns dois bêbados inoportunos, já que a livraria funciona dentro de um bar. E quando passo lá, às vezes, a livraria parece, não sei, algo mais orgânico do que concreto. Há algo interno, invisível nela, que a transforma em uma livraria enorme. Isso porque Buenas construiu, de uma forma muito natural, seu espaço de trabalho como um retrato fiel de seu espírito. A mesma impressão é passada nos textos deste livro. Já no primeiro, vemos que se trata de um livro sobre um homem que deixa muito claro que não procura por nada, e preenche esse nada com músicas, diários de leitura, de hábitos, relatos de lembranças familiares, ou com observações prosaicas sobre sua vida que passa, com garotas que passam, com clientes que passam, com bebidas que vão acabando e, é claro, não acabam nunca. As músicas e toda opinião cultural pelos vários textos constroem uma unidade sentimental e estética que dá força e sensibilidade para a identidade do escritor de crônicas, que, por isso, acaba virando um personagem de novela ao longo do livro. Um personagem capaz de construir uma poesia leve mesmo quando em meio ao caos. Como esse trecho que por pouco não virava um hai kai, "... do que vivemos no intenso outono daquele ano. O inverno foi tenebroso. A primavera, tranquila.", quando comenta um relacionamento. Ou então capaz de absorver o peso do mundo em momentos de aparente tranquilidade, como essa frase "Depois que abri a segunda cerveja e sentei no sofá, fiquei pensando nos jovens que se matam cedo demais", em meio a um texto sobre visitar a mãe. Porque o Buenas é meio que isso mesmo. Um livreiro quieto que de repente encontra uma piada e se diverte, ou encontra uma briga e entra com fúria pra dentro dela, e depois volta, bota os fones de ouvido, e se senta em seu canto, em silêncio, bebericando uma cerveja importada, pensando naquela velha piada, e talvez até abra um sorriso de canto de boca, como se nada de diferente tivesse acontecido, diferente seria ele não voltar pro seu lugar de poder, que é a solidão. Então, como o livro é o Tarcisio, há um monumento forjado para a solidão em cada página. E a maior matéria-prima desse monumento seja talvez o silêncio. E como é um