O Livro de Scardanelli não é apenas uma recolha de poemas, é a realização consciente e deliberada de uma concepção de poesia, para a qual a ideia do fim da falácia da subjetividade é uma das chaves. Inútil buscar aí o “eu empírico” do autor, não que esse esteja ausente, podemos até dizer (paradoxo!) que sua presença é dominante, mas prefere expressar-se de modo evasivo, irônico, por meio de máscaras e representações metafóricas, tomadas de empréstimo não só a Hölderlin-Scardanelli, mas a vários outros poetas. Há qualquer coisa no infratexto desta bela realização poemática, apenas latente mas firme e discretamente assinalada no teor e na feitura dos versos, que corre o risco de passar despercebida… Trata-se, quem sabe, de uma insinuante voz em off, que nos diz: veja, ilustre passageiro, quão moderno soa, neste nosso tempo de entulho e negligência instituída, a rigorosa disciplina de um alexandrino ou um decassílabo; aqui e ali, uns indícios de vulgaridade sabiamente imiscuídos em um estilo ambiguamente sublime; o uso bem casado de rimas e encadeamentos que não fazem implodir a amarração sintática mas a levam a brigar consigo mesma; e tantos outros refinados expedientes, que nos mostram, afinal, o óbvio, que por isso mesmo corre o risco de ser esquecido: nada é o que parece.Carlos Felipe Moisés