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O Camaleão Que Sabia Palikur - Livraria da Vila
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O Camaleão Que Sabia Palikur

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O homem — descalço, de calção branco folgado e uma camisa com propaganda de uma antiga marca de cerveja — avisou: o mundo lhe devia uma cota de animais. Ele não engolia nada que ciscava para trás, senão a vida não engrenaria; nem apreciava seres rastejantes, ou acabaria rastejando; muito menos se nutria de bichos de hábitos noturnos, para que as trevasnão se apoderassem dele. Tampouco provava voadores; pois só anjos e pássaros têm asas; e confundir-se não custa. Evitava os vegetais amarelos, porque provocam hepatite e amarelão; os vermelhos atraem as tocaias mortais; já os roxos nascem enlutados, e os brancos acarretam anemia. Numa manha em que a floresta parecia gripada — tamanha a bruma que encobria o arvoredo e o Amazonas — sequestraram o curumim. Claudionor cresceu entre livros, rezas e sinos, Aprendeu a ler as palavras dos homens, mas passou a vida tentando decifrar as da floresta. Anos depois, fundou um arruado sobre a linha do Equador. Numa única rua, pôs o Inverno de um lado e o Verão do outro. Para Inverão chegaram homens e mulheres sem terra, sem família, sem passado — e outros com passado demais. Trouxeram seus mortos, seus deuses e alguma esperança que ainda não sabia nomcer. Ali, o sino não marcava as horas: alertava contra as queimadas, anunciava mortes e badalava para espantar a solidão. O calendário atrasado havia anos, deixou de governar os dias, e o tempo passou a obedecer às chuvas e à saudade. Em Inverão, uma gata inaugurou o cemitério; uma encruzilhada mereceu festa; igrejas, terreiros e pajés repartiram o invisível sem jamais chegar a um acordo. Debaixo de uma sumaúma vivia o camaleão que desconfiava de que a realidade e o sonho talvez fossem margens do mesmo rio. O Camalcáo que Sabia Palikur é uma fábula amazónica sobre memória, pertencimento e imaginação. A história de um menino que perdeu a terra onde nasceu e descobriu que algumas pessoas só conseguem voltar para casa depois de inventá-la.