Com apuro filológico e um vasto conjunto de referências, os estudos deste livro investigam os modos pelos quais os conceitos de tempo, história e linguagem se entrelaçaram na cultura ocidental, formando um complexo do qual não conseguimos nos desvencilhar.
Ao lançar luz sobre a importância do ordenamento cronológico para a historiografia moderna, Agamben desvenda uma cronografia constitutiva, uma escrita do tempo que, longe de ser convenção neutra, está marcada pela forte presença da teologia cristã. Tal presença seria tão intensa que mesmo aquilo que a modernidade compreende como história universal dependeria exclusivamente, nas palavras do autor, da ‘economia da salvação’. Pressupostos que reputamos científicos seriam tributários de uma matriz teológica não reconhecida.
O objeto de investigação histórica só pode aparecer, portanto, no horizonte dado pela escatologia cristã. A crítica da modernidade, por sua vez, não deveria exigir a recusa simples e arbitrária desses pressupostos, mas o desvelar contínuo de sua estrutura própria. Para elucidar o argumento, uma notável constelação temática é mobilizada no livro: desde a discussão sobre o mundus que, nas cidades romanas, estabelecia a comunicação entre o passado e o presente; o estatuto da tradição e da transmissão dos discursos; a heterogeneidade entre chronos, o tempo quantitativo e mensurável, aion, o tempo qualitativo da experiência, e kairos, em que o quantitativo e o qualitativo coincidem; até o testemunho daqueles que estiveram próximos da morte e viram desfilar diante de seus olhos todos os eventos de sua vida em uma vertiginosa condensação.
No entanto, é a noção de resto, tomada da tradição bíblica e messiânica, que articula o conjunto destas reflexões. Resto, aqui, não designa o que se perdeu nos esquemas narrativos tradicionais, mas o princípio que resiste à identificação de algo consigo mesmo, aquilo que, no interior de qualquer totalidade, insiste como não coincidência.
Por isso, para Agamben, a filosofia e a poesia, uma vez dissociadas das funções comunicativas da linguagem, podem aparecer como ‘um resto da língua’. E se ‘o que resta, a parte da vida e da língua que salvamos da ruína, entretém uma relação particular com o perdido’, é a partir desse resto que podemos pensar a condição aparentemente sem saída do nosso tempo.