Em uma sociedade que venera o brilho dos estádios e romantiza a jornada do jogador, o livro A metamorfose dos meninos em homens que “vendem suas pernas”: produção, expropriações, trabalho e classe social dos jogadores de futebol propõe re?etir sobre o lado oculto do sonho. Para tanto, a obra se estrutura inicialmente em quatro pilares que moldam a formação esportiva de milhares de jovens mundo afora, a saber: exploração do trabalho infanto-juvenil mascarada de direito ao esporte, o trá?co de promessas do futebol impulsionado por migrações cada vez mais precoces e intensas, a difícil conciliação entre a formação esportiva e a escolar e a dura cultura da “dispensa”, que transforma clubes em funis onde poucos passam e a maioria é simplesmente descartada. Mas e os que resistem? Aqueles raros meninos que sobrevivem às engrenagens do futebol pro?ssional se tornam homens que enfrentam dilemas semelhantes a qualquer trabalhador: desemprego, contratos curtos, salários atrasados, carreiras instáveis e condições indignas, em um jogo no qual até o futuro pode ser expropriado no próximo corte do elenco ou por alguma lesão de maior gravidade. Assim, ao relacionar o futebol às desigualdades estruturais do capitalismo, o livro desmonta a ideia de um jogador universal e homogêneo. O atleta é aqui mostrado (desde sua formação) como um sujeito de classe, inserido em uma cadeia de produção e reprodução de sua própria força de trabalho, uma mercadoria altamente estrati?cada e desigual. E mais, rompendo a linha do previsível, o esforço teórico ainda ousa enfrentar uma das maiores perguntas do esporte-negócio: um jogador de futebol, mesmo no auge da fama e fortuna, pode ser considerado trabalhador? A resposta desa?a entendimentos hegemônicos em um dos mercados mais admirados e menos compreendidos da sociedade. Portanto, trata-se de um livro indispensável para quem deseja compreender o futebol além do encantamento… e enxergar os meninos e homens por trás das pernas (mas não só) que movem a bola e a complexa indústria em torno da modalidade.