Minas Gerais é feita de silêncios e montanhas, de caminhos que se entrelaçam como veias antigas, conduzindo histórias, sabores e modos de ser. Entre o ouro das minas, o verde dos vales e a poeira das estradas, desponta uma riqueza que não se extrai do chão, mas se cria com as mãos: o Queijo de Minas. Essa iguaria representa a alma mineira: paciente e sistemático, teimoso e profundamente afetivo. Esta obra conduz o leitor por longa travessia e viagem histórica das transmissões de saberes associados à produção do queijo, que emerge do encontro de povos, técnicas e saberes que se misturaram desde o período colonial. Consumido e produzido no Brasil Colônia desde os inícios do séc. XVI, o queijo encontrará no território mineiro sua maior ressonância, tornando-se o elo mais visível entre tradição, identidade e pertencimento. Enquanto o ouro se esgotava, o queijo florescia — persistindo como verdadeira riqueza de Minas.
Ao longo das páginas, desfilam receitas encontradas nos primeiros livros de receitas culinárias do Brasil, no séc. XIX, que reforçam o papel do Queijo de Minas na formação de uma identidade alimentar relevante não só para os mineiros, mas também para outros brasileiros, que compartilham sua importância no cenário gastronômico. A menção do Queijo de Minas/queijo Minas nos primeiros jornais impressos do Brasil, séc. XIX e início do séc. XX, dá pista de como esse alimento se inscreveu na vida, no comércio e no imaginário da sociedade brasileira, conquistando os paladares e ultrapassando fronteiras. Nesses jornais, torna-se símbolo de afetividade gustativa, confiança, simplicidade e acolhimento — virtudes tão associadas ao ser mineiro.
O queijo se revela como elemento de longa duração, expressando histórias de um legado que, mesmo enfrentando proibições, burocracias, intempéries e esquecimentos, manteve sua essência. A narrativa culmina com o reconhecimento dos modos de fazer o queijo Minas artesanal como patrimônio cultural imaterial pelo IEPHA/MG e IPHAN e, enfim, com sua inscrição na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO em 2024, passando a figurar entre as tradições culinárias mais valiosas do planeta, elevando Minas Gerais no cenário internacional como território de saberes e sabores únicos.