Após longa experiência com pacientes classificados pela psiquiatria
como “portadores de transtorno alimentar”, Marina Miranda considera que a
principal questão não são os sintomas ruidosos e paradoxais dessas patologias,
mas o que eles “manifestam pelo avesso” – angústias primitivas, fantasias apavorantes
e defesas destrutivas que os sustentam. O trabalho clínico consiste em acolher
a singularidade da pessoa e vivê-la junto dela. O risco maior é o de que
as palavras do analista soem como tentativas de fazê-la “engolir” essas
palavras e, com elas, os monstros que a recusa em se alimentar (ou o vomitar
compulsivo do que foi ingerido) quer manter distantes, ainda que tendo o risco
de morrer. Essa renúncia à onipotência exige uma equipe
pluridisciplinar para atentar aos múltiplos aspectos da doença: efeitos deletérios
sobre diversos sistemas do organismo, problemas emocionais intrapsíquicos e com
o ambiente familiar, reclusão defensiva em seu modo de ser.Esta obra interessa não apenas a profissionais e famílias
que vivenciam o transtorno alimentar, mas também ao público em geral, pois
habitamos uma sociedade na qual a repressão mais violenta já não incide sobre a
sexualidade, e sim sobre a alimentação e seus correlatos.
Renato Mezan