Em 1976, Sonia Guimarães desembarca em São Carlos para cursar a faculdade de Física. Tinha o cabelo alisado e um bolo de dinheiro em mãos, oferecido pela mãe, que a incentivava a estudar, à revelia do que seu pai pensava à época sobre autorizar a filha solteira a viver longe de casa. Sonia é a primeira da família a entrar numa universidade e uma das poucas mulheres negras do campus. Poucos meses depois, reaparece em casa de cabelos crespos.
A lista de primeiras não para de crescer. Primeira mulher negra doutora em Física do país e primeira professora negra do ITA, onde ingressou em 1993, quando o instituto ainda nem aceitava alunas mulheres. Cada porta aberta cobra o seu preço, e ser a primeira traz o ônus de trilhar um caminho que ninguém percorreu antes. É a partir dessa constatação e movida pela sua vontade de desbravar mundos novos que Sonia forja cada um dos seus próximos passos, com uma surpreendente firmeza diante dos obstáculos que se interpõem em seu caminho.
Neste livro de memórias, ela reconstitui sua trajetória contando pela primeira vez episódios que guardou por décadas e nunca couberam numa entrevista. A professora e inventora explica em detalhes o preço que pagou por cada uma das suas conquistas e por ser a primeira a chegar em tantos lugares.
Como uma celebração dos seus 70 anos de vida, o livro relembra o racismo velado da academia, o colorismo dentro da própria família e a importância das pequenas vanguardas femininas que permitiram a construção do seu caminho, como o incentivo da mãe, o que fez com que ela pudesse escolher a Física e entender mais sobre como funciona a luz. Contado em primeira pessoa, este livro é mais do que um relato sobre o preço que se paga por ser a primeira: a narrativa mostra que muitas vezes a luz precisa vir de dentro da gente. Nas últimas décadas, Sonia faz questão de manter iluminado o caminho de tantas outras que ainda estão por vir.
Seu maior sonho é não ser a última.