Publicado em 1836, O nariz é um dos maiores clássicos da literatura russa do século XIX. Traduzido para diversos idiomas, e com inúmeras edições brasileiras, esta é a primeira vez que a novela é publicada junto ao libreto da ópera homônima de Dmitri Shostakovich, composta a partir da obra de Gógol e estreada em Moscou em 1930. Ao apresentar duas versões de O nariz — o original e a adaptação para libreto —, esta edição amplia as possibilidades interpretativas de um texto já consagrado.
Sua narrativa parte de uma situação improvável e absurda: certa manhã, o assessor de colegiado Kovaliov descobre que seu nariz desapareceu completamente, deixando em seu rosto apenas uma superfície lisa como “uma panqueca recém-assada”. O espanto aumenta quando ele percebe que o órgão ganhou vida própria e passou a circular por São Petersburgo, vestido com uniforme e sendo tratado como uma figura de autoridade.
Ao transformar uma narrativa fantástica em crítica social, Gógol expõe as contradições de uma sociedade dominada pelas aparências, pelos títulos e pelas hierarquias. Com sua imaginação irreverente e seu olhar atento para o comportamento humano, o escritor russo revela, por meio do grotesco e do absurdo, a fragilidade das convenções que organizam a vida em sociedade.
Dois posfácios inéditos completam a edição: Arlete Cavaliere, ensaísta, tradutora e professora titular de teatro, arte e cultura russa na USP, explora a estética de Gógol, o contexto social e histórico da novela e sua repercussão; Irineu Franco Perpetuo, que também assina a tradução da obra e do libreto, investiga as conexões entre literatura e música ao colocar lado a lado Gógol e Shostakovich — escritor e compositor —, duas figuras fundamentais para os séculos xix e xx e para a compreensão de O nariz.