Este livro foi concebido como uma introdução ao que defendemos ser uma “teoria social latino-americana”. Partimos do pressuposto de que essa teoria existe e se constituiu na periferia do sistema-mundo ao menos desde os processos de autonomização política da região. Desde então, tem se desenvolvido de forma própria, constituindo-se como uma reflexão sobre o lugar periférico e a formação de seus países e da região como um todo, mas também refletindo sobre problemas globais, da modernidade, do capitalismo, das ideologias e das escolas teóricas de circulação mundial, das alternativas e dos projetos de futuro colocados diante da humanidade. Nesse sentido, essa produção é “teoria”, mas não “pura” ou “abstrata”, e sim condicionada desde o princípio por nossa condição periférica e atravessada pelo dilema da intelectualidade periférica entre “ser como o centro” e “ser nós mesmos”. […]
A dificuldade em estabelecer quem e quais seriam nossos clássicos ajuda, aliás, a explicar a desvalorização da produção intelectual da região. Se não determinamos quem nos confere a referência e a linguagem comum de nosso discurso e nossa prática científica, ficamos reféns de fórmulas estrangeiras. Portanto, considerado o dinamismo da produção nas ciências sociais, entre continuidades e descontinuidades intelectuais, políticas, culturais e econômicas, a própria delimitação de autorias e obras clássicas variará com o tempo. A exegese e a reinterpretação dos clássicos são uma prática importante nas ciências sociais. Essa prática em movimento — e constante disputa — gera descobertas, redescobertas, e deixa antever o que será mais ou menos representativo no momento em que essa história estiver sendo redigida.
— Raphael Lana Seabra & Fabricio Pereira da Silva, na Apresentação