A história da Casa da Árvore é a de uma instituição que faz de si mesma um permanente experimento. É essa disposição que preserva sua plasticidade e a mantém permeável às questões de seu tempo. Desde sua criação, no início dos anos 2000, a Casa da Árvore deslocou a clínica para além de seus contornos tradicionais, fazendo dos territórios marcados pela vulnerabilidade social um espaço de cuidado, produção de conhecimento e invenção.
Anos depois, a partir do impacto provocado pelo assassinato de Marielle Franco, a Casa da Árvore iniciou um profundo processo de transformação institucional. Deparar-se com sua própria branquitude tornou o racismo nomeável e pensável no interior da instituição e inaugurou um novo deslocamento: reconhecer que a história, a corporeidade e os pertencimentos racial e social dos profissionais também constituem a clínica, atravessando a escuta, o brincar, a palavra e os modos de estar com as crianças e suas famílias. Ao tomar as relações raciais como matéria do cuidado, da formação e da experiência clínica, a Casa da Árvore amplia seu campo de trabalho. Essa perspectiva inaugura uma prática não só capaz de escutar os efeitos do racismo já presentes na experiência das crianças, o que por si só não é pouca coisa, mas, ao reconhecer as relações raciais como parte da constituição das subjetividades desde a infância, aposta no fortalecimento do pertencimento e na possibilidade de produzir outras narrativas sobre si e sobre o outro desde os primeiros anos de vida. Em uma sociedade estruturalmente racista, este livro testemunha a experiência de um dispositivo em atualização, uma prática que faz da própria transformação institucional a condição para permanecer viva e, assim, seguir produzindo vida.
Fernanda Kutwak