FUMIKO KANEKO (1903–1926) nasceu abandonada pelo Estado, que não a reconhecia como cidadã, e pela família, que a explorava e tratava como estorvo. Ainda criança, foi mandada à Coreia, então colônia do Japão, e viu de perto a mesma engrenagem que a esmagava ser aplicada a um povo inteiro. Em Tóquio, enquanto lutava por estudo e sustento, encontrou o anarquista coreano Park Yeol e um modo de viver que não pedia licença a ninguém. Presa em 1923, na onda de histeria contra coreanos e esquerdistas, foi acusada de alta traição contra o imperador. O juiz pediu-lhe que escrevesse sua história para explicar como chegara ali. Ela respondeu com este livro: não uma confissão, mas uma acusação. Condenada à morte, recusou o perdão do imperador que comutava sua pena, já que não reconhecia a autoridade do monarca. Morreu ou foi morta na prisão aos 23 anos.
Este não é o relato de uma vítima. É o testemunho de uma mulher insubmissa que aprendeu sozinha a dizer não a todos que a queriam de joelhos. Um século depois, quando nacionalismo e autoritarismo mostram as garras, sua reflexão segue urgente: o que nos fez ser assim?
SÉRIE INSUBMISSA
Cada volume celebra uma pessoa insubmissa que enfrentou os opressores para fazer avançar nossos direitos e liberdades. As ideias e histórias de vida de cada uma delas nos municiam para encarar questões que permanecem urgentes hoje: desigualdade, preconceito, censura, autoritarismo e repressão.