O que pode dizer ao presente uma obra nascida no século I EC? À primeira vista, a História Natural de Plínio, o Velho, parece oferecer apenas um inventário de curiosidades: plantas medicinais, espetáculos exóticos, fenômenos inexplicáveis e hábitos singulares. No entanto, é precisamente nesse universo de minúcias que desponta outra forma de pensar o registro histórico. Para além de um inventário de curiosidades, proponho que a História Natural oferece uma imersão nas formas antigas de produzir e transmitir conhecimento, interrogando as noções de autoridade, tradição e experiência. Longe das narrativas centradas em guerras e conquistas, Plínio nos ofereceu uma escrita da história atenta aos pequenos feitos, aos saberes dispersos e às experiências ordinárias. Seria possível, então, falar de uma história dos pequenos feitos romanos? Ao revisitar Plínio, abre-se aos leitores e leitoras contemporâneos a possibilidade de compreender como um autor do mundo romano organizou o conhecimento disponível e inscreveu na memória aquilo que, num primeiro olhar, pareceria efêmero. Entre erudição e observação, Plínio nos lembra que escrever sobre o mundo também é uma forma de preservá-lo no tempo.