Rigor e sensibilidade marcam este livro no qual Rafael Borges de Oliveira se debruça sobre documentos diversos e dispersos preservados no Brasil, Itália e Bélgica, que lhe permitiram interpretar a chegada da missão barnabítica no Brasil, em particular em Pernambuco e no Pará, em 1903. Entendendo que uma viagem não se esgota na travessia, consultou papéis preciosos – escritos em diferentes línguas por religiosos da Ordem dos Clérigos Regulares de São Paulo – atento aos sujeitos, contextos, motivações, impressões, desdobramentos e repercussões da imigração para terras distantes. Em diários de bordo, cartas, atas, livros de crônicas e relatórios, que escaparam do abandono e do esquecimento, interrogou as razões políticas e sociais que os levaram a optar por estes lugares de missão; examinou os desafios enfrentados no novo e desconhecido mundo que deveriam evangelizar e educar; perscrutou disputas políticas e religiosas com as quais se defrontaram; e, estabeleceu aproximações e diferenças sobre o acolhimento recebido, em um exercício de comparação entre os dois grupos que se deslocaram para as cidades de destino. Enquanto se folheia o livro, em cada página, o leitor se perguntará: como um pesquisador teve acesso a tantos documentos guardados em colégios católicos, igrejas e arquivos eclesiais que julgamos revestidos de interdições, censuras e segredos? Inscrita nas linhas e entrelinhas, a resposta também é uma viagem que pode surpreender.
Ana Chrystina Mignot
Professora Titular
Programa de Pós-Graduação em Educação
Universidade do Estado do Rio de Janeiro