Os limites que separam a civilização da barbarie nem sempre estão rigorosamente demarcados. Tendo essa tensão por premissa, Cécile Coulon constrói um romance em um mundo fechado e aparentemente perfeito. No Paraíso, propriedade da família de Émilienne, residem bichos, pessoas, gestos, segredos e afetos difíceis de nomear. Sem saber onde e quando a ação se passa, o leitor está diante de um tempo-espaço suspenso, a não ser pelo envelhecimento dos personagens que crescem diante dos olhos de quem se permite aventurar por essas páginas, pela estrada em direção ao Paraíso.
É lá onde Émilienne cria sozinha seus dois netos, Blanche e Gabriel, órfãos após um trágico acidente. As crianças crescem, Blanche conhece Alexandre e se apaixona por ele, até que, chegando à idade adulta, o casal se encontra diante do impasse que guia narrativa: Alexandre quer partir para a cidade; Blanche, permanecer no campo. Entre o brilho dos prédios e o curral dos porcos, surge entre os jovens um embate estético e filosófico que move todos os habitantes do Paraíso, em especial as mulheres, enfeitiçadas por manter aquilo que consideram o bem mais precioso que possuem, a terra. Ou será que são por ela possuídas?
A partir desse conflito, a trama se desenvolve com agilidade e fervor. Lembrando a atmosfera dos filmes de Claude Chabrol – cineasta por quem a autora declara admiração –, o desejo e a violência corroem discretamente a ordem familiar e se espalham pelas páginas deste romance até seu ápice. Outros personagens também parecem refletir o tema central, além de terem, eles próprios, seus dilemas que compõem um retrato de infelicidade iluminado por lampejos de esperança. É o caso da família de Alexandre, sem perspectivas de subsistência, e de Louis, menino que Émilienne adota para afastar de uma vida de agressões, mas que luta ao longo de seu crescimento contra essa força arrasadora que cresce silenciosa dentro de si.
Primeiro romance de Coulon publicado no Brasil, Uma fera no Paraíso traz elementos do gótico rural e da história de amor, sempre pela perspectiva feminina, em diálogo com os temas que a autora, poeta e dramaturga articula em suas produções. Ambição, desejo, herança, liberdade e violência são forças que compõem esta narrativa atemporal e contemporânea sobre amor e loucura. Um livro sobre aquilo de que não se consegue escapar.