Há um mito antigo que atravessa este livro: o de uma mulher transformada em monstro, cujo olhar petrifica quem a encara. Os personagens de Lyubko Deresh conhecem bem essa sensação — os psicanalistas franceses até têm um nome para ela: medusage. É o que acontece quando a dor é grande demais e algo, dentro de nós, simplesmente para de sentir.
Em 2022, durante o primeiro inverno da guerra em grande escala, um grupo de amigos tenta preservar aquilo que ainda resta de suas vidas em Lviv. Enquanto alguns retornam do front profundamente transformados, outros convivem com a culpa de terem permanecido na retaguarda. Há quem atravesse o país em busca de abrigo, quem dedique os dias a manter vivos aqueles que continuam lutando e quem descubra que o amor também pode ser uma das vítimas da guerra.
Em O olhar da Medusa: um pequeno livro das trevas, Lyubko Deresh combina o drama íntimo de uma geração marcada pela guerra com reflexões sobre amizade, culpa, amor e pertencimento. As vozes se alternam, se cruzam e se completam, como se a dor da guerra fosse um único organismo compartilhado. E, para enfrentar a Medusa, resta uma só saída: erguer um escudo, como fez Perseu, para não ser destruído por ela.