Aos quinze anos, passeando sozinho por um bosque nos arredores de Leipzig, o jovem Leibniz deliberava consigo mesmo se conservaria as formas substanciais dos antigos e dos escolásticos. O mecanicismo cartesiano prevaleceu então, e o levou a se dedicar à matemática — mas o problema da substância nunca o abandonaria de todo, e seria ele o fio que atravessaria toda a sua obra futura.
É esse fio que se pode acompanhar neste volume: da natureza da substância às provas do ser de Deus, da necessidade e da contingência à harmonia pré-estabelecida entre as mônadas — as unidades simples, indivisíveis, que Leibniz concebe como espelhos reflexivos do mundo como um todo. Tudo converge, por fim, na Monadologia, texto de 1714 em que Leibniz condensa décadas de pensamento em poucas páginas — tão poucas, e tão densas, que raramente servem de primeira porta de entrada a essa filosofia.
Por essa mesma razão que o volume traz, ao lado dos textos de Leibniz, a introdução e a nota de Émile Boutroux sobre a vida e a arquitetura de seu sistema, e a nota de Henri Poincaré, que relê os fundamentos leibnizianos da mecânica com o instrumental do cálculo moderno. Reunidas, essas três vozes compõem um retrato mais completo do filósofo que passou a vida tentando reconciliar, numa só arquitetura, as formas escolásticas, a nova ciência mecanicista e os dogmas da fé cristã.