Em 1899, Júlia Lopes de Almeida deu à narradora Martha uma lucidez incomum para enxergar a própria vida: a pobreza do cortiço, a mãe que se consome de trabalho, os primeiros amores, o peso do que se espera de uma mulher. Mais de cem anos depois, essa mesma Martha ganha novos traços nas mãos de Lorena Kaz — autora que dedicou a própria obra a entender o abuso emocional e a dependência afetiva, temas que atravessam sua trajetória pessoal e sua trajetória de artista. Kaz não ilustra Martha de fora: reconhece nela uma sensibilidade que também já rejeitou em si mesma, antes de aprender a acolhê-la.
O resultado é um raro encontro entre duas mulheres separadas pelo tempo, mas unidas pela mesma pergunta: o que resta de uma mulher quando tudo ao redor conspira contra sua voz? Um encontro ainda mais atual num ano em que a lista de leitura da Fuvest passou a ser composta só por autoras, reafirmando a urgência de resgatar nomes como o de Júlia Lopes de Almeida, apagadas do cânone literário por tanto tempo.