O livro O Pampa virou mar: Como o Cinema Gaúcho representa a maior praia do mundo?, de I. Boca Migotto, investiga como o cinema produzido no Rio Grande do Sul representa o litoral gaúcho e o que essas representações revelam sobre a identidade regional.
A pesquisa parte de uma questão central: por que, nos filmes gaúchos ambientados no litoral, a praia aparece frequentemente no inverno, vazia e associada a personagens em deslocamento, solidão ou crise existencial?
O autor relaciona essa representação à própria formação histórica do Rio Grande do Sul. Diferentemente de grande parte do Brasil, o estado se desenvolveu voltado para o interior, marcado pelo pampa, pela pecuária e pelas disputas de fronteira, enquanto o litoral permaneceu durante muito tempo à margem do imaginário regional.
Ao analisar diferentes filmes, Migotto identifica uma mudança na maneira como o cinema gaúcho representa o território. O pampa, tradicionalmente associado à identidade e à afirmação regional, dá lugar ao mar como espaço de dúvida, deslocamento e transformação. Assim, o litoral deixa de ser apenas cenário e passa a funcionar como uma espécie de metáfora para personagens que estão em crise ou buscando compreender a própria identidade.
A ideia central pode ser resumida na frase do próprio livro: “O mar não nega o pampa; ele o relativiza.” O litoral aparece, portanto, como um espaço intermediário entre tradição e contemporaneidade, estabilidade e instabilidade, pertencimento e deslocamento.